Em 2022, a editora paulista Todavia adquiriu os direitos de publicação da obra de Antonio Candido (1918–2017), um dos intelectuais brasileiros mais importantes do século XX. A editora é conhecida por publicar obras em sintonia com debates contemporâneos, razão pela qual causa espanto que suas reedições da obra de Candido, que começaram a sair em março desse ano, parecem existir em uma bolha fora do tempo, na qual a história não existe e o tempo não passa. As reedições da Todavia não incluem nenhum material adicional, como introduções, notas, ou fortuna crítica, mas simplesmente reproduzem as edições que já existiam. Elas poderiam ter sido publicadas em 2023, 2003, ou 1983 — a depender da data de publicação original, e das revisões feitas pelo próprio Candido antes de morrer. O prefácio de Literatura e sociedade (Cia. Editora Nacional, 1965), por exemplo, é o da 3ª edição, de 1972. Tudo se passa como se nos 50 anos subsequentes nada tivesse que ser acrescentado sobre a obra de Candido.

Se essa atitude editorial pode fazer algum sentido com obras de ficção e poesia, capazes de preservar uma certa ilusão de imediatismo através das eras, ela é absurda quando se trata de reeditar obras acadêmicas. A escrita acadêmica emerge de debates e marcos teóricos específicos e, na melhor das hipóteses, suscita novos debates e estabelece novos marcos. Com o passar do tempo, obras desse tipo tornam-se elas mesmas objeto de pesquisa e parte de uma história intelectual que as transcende. Ao ler uma obra publicada 60 anos atrás, a leitora contemporânea se pergunta: em que contexto institucional essa obra foi produzida? Qual era o clima político e intelectual da época? O que motivou o autor ou autora a escrevê-la? Como o vocabulário mais técnico dessa obra adquire sentido e consistência na maneira como seu autor o utiliza, mas também a partir dos sentidos comuns de então? O que foi escrito em resposta a essa obra, motivado por inspiração ou polêmica? Quais ideias e argumentos desse texto continuam fazendo sentido hoje? Quais provocam incômodo e de onde vem o incômodo? Em resumo: como tal obra surgiu, o que foi feito dela, e o que ainda é possível fazer dela hoje?
Para ajudar a leitora a responder essas perguntas, uma reedição deve oferecer coordenadas; um mapa para ajudar a ler a obra em questão. No caso de Formação da literatura brasileira (1959), por exemplo, as coordenadas poderiam começar apontando que o livro, uma combinação de história e teoria da literatura brasileira com inovações metodológicas, foi encomendado pela editora Martins, e publicado no mesmo ano que Introdução à literatura brasileira (Livraria São José, 1959), de Afrânio Coutinho. Que fermentos motivaram a produção de novas histórias da literatura brasileira naquele momento histórico? Coutinho apontava um caminho distinto, e não trilhado para a crítica literária no país, que seguiu mais próxima dos rumos apontados por Candido. Formação gerou debates famosos não só com o próprio Coutinho, mas também com Haroldo de Campos, cujo Sequestro do Barroco (Fundação Casa de Jorge Amado, 1989) questionava a abordagem de Candido. Qual foi a natureza desses debates? Como eles se resolveram, ou não se resolveram? O mapa também poderia apontar que Candido trabalhou em Formação enquanto ensinava sociologia na USP e escrevia sua tese de doutorado sobre o cururu, dança tradicional caipira, que depois se tornaria Os parceiros do Rio Bonito (José Olympio, 1964), outro “clássico” da obra de Candido. Como as concepções de sociologia e literatura do autor se influenciaram mutuamente? A obra de Candido se vale de conceitos fortes como “formação”, “sistema literário”, “momentos decisivos”. Como Candido desenvolveu esses conceitos? De onde eles vieram? Que influência tiveram na crítica posterior?
Esses são alguns exemplos de que tipo de mapa o aparato crítico de uma reedição poderia oferecer. Muitas dessas perguntas foram parcialmente respondidas no trabalho de críticos como Anita Martins Rodrigues de Moraes, Alfredo Cesar Barbosa de Melo e Sergio Alcides, para ficar em três nomes que publicaram textos sobre Candido na última década. Ao abrir mão de oferecer coordenadas desse tipo, a Todavia sonega sua responsabilidade editorial, que deveria ser a de contextualizar as obras que publica e torná-las mais legíveis ao leitor contemporâneo. Editoras são atores culturais de enorme importância, não só pelo que escolhem publicar ou não publicar, mas também pela maneira como apresentam aquilo que editam ao público, através de materiais promocionais e paratextuais. A edição é em si uma instância intelectual de valor crítico.
No caso da reedição da obra de Candido, o único gesto de contextualização da editora veio na forma de um site dedicado a promover o projeto. O site inclui uma síntese da biografia do autor paulista, acompanhada de uma seleção de fotos e uma série de “ensaios inéditos” escritos por acadêmicos a respeito das obras publicadas até agora. Na apresentação da página, a editora afirma que o relançamento “mostra às novas gerações a atualidade de uma obra inesgotável e decisiva”. Mas os clássicos da escrita acadêmica, como o são várias das obras de Candido, mantêm sua relevância — sua “inesgotabilidade”, digamos — não tanto pelas ideias que carregam, mas pela maneira como articulam pesquisa, erudição, escrita e pensamento. E mais: pela janela que oferecem a um outro tempo das ideias.
A produção acadêmica, sobretudo nas humanidades, se caracteriza por uma certa transitoriedade de suas proposições, vinculadas a conjunturas sociais e políticas muito específicas. Mas isso não as impede de transcender essas conjunturas. Como disse Dipesh Chakrabarty: “O que torna um grande pensador interessante são os erros que ele comete. Seu objetivo como acadêmico deveria ser cometer um erro muito interessante.” Ou como escreveu John Guillory (em referência a Cultura do Renascimento na Itália, de Jacob Burckhardt): “Poucos acadêmicos hoje aceitariam a tese de Burckhardt sem revisões. Alguns a rejeitam de todo. Mas o livro sobrevive sua tese e continua a estimular a produção acadêmica, até mesmo definindo os termos do repúdio de suas afirmações.” Essa combinação de, por um lado, teses polêmicas ou simplesmente errôneas, mas provocadoras, e, por outro, exemplaridade na articulação das ideias poderia servir para caracterizar a obra de Candido e justificar sua contínua relevância. Infelizmente, as reedições da Todavia a tratam como textos de valor atemporal, e pior, a-histórico. Como se o que Candido escreveu valesse tanto em 1959 ou 1972 como hoje, e como se seus significados permanecessem os mesmos.
Parte dessa atitude se verifica inclusive nos ensaios publicados na página promocional. A primeira pergunta suscitada por essa coleção de ensaios é: por que não publicá-los nos próprios livros reeditados? Vale insistir, uma vez mais, na importância do paratexto para a publicação de obras acadêmicas históricas. Ao ler os ensaios, porém, surge uma nova pergunta: qual é a sua função? Tomados no conjunto, eles fazem um esforço de resumir as obras às quais se dirigem, com gestos apenas ocasionais de contextualização. À exceção de um, os ensaios tratam os livros de Candido quase só como texto, concedendo pouco ou nada às condições em que foram produzidos ou à sociedade à qual se dirigia. Além disso, mantêm um tom puramente celebratório, que pouco os distingue dos textos francamente publicitários do restante do site. O estilo de Candido é “cativante”, suas ideias têm “originalidade e agudeza”, sua tonalidade é “despretensiosa e desanuviada”, seus livros têm “lindas passagens”, seu espírito é “livre”. Por outro lado, menções aos debates provocados por essas obras quase não aparecem, e quando aparecem são pontuais, de passagem, e referidos ao anonimato: “ao contrário do que pensam certos críticos”, “Tachada por seus detratores de ‘sociologizante’, na acepção menos rigorosa do termo, sua extensa obra cria... etc.” (os itálicos são meus). Note como não só os detratores e críticos são anônimos, mas também suas críticas não são dignas de engajamento sério. E mais: a própria ideia de debate é reduzida à ideia de “crítica” como algo pernicioso.
O que é o mais sério, os textos, via de regra, ignoram as comunidades intelectuais das quais Candido fez parte e que foram inspiradas ou provocadas por ele. Com três ou quatro exceções, e sempre de passagem, nenhum outro crítico literário é mencionado. Acadêmicos de outras áreas são mencionados com consistência somente no texto de Luiz Carlos Jackson sobre Os parceiros do Rio Bonito, que também é o que mais se dedica a situar a obra de Candido em seu contexto, explicando a influência do pensamento sociológico anterior. Nos demais casos, é como se o crítico da literatura e da sociedade brasileiras existisse num vácuo onde só estão ele, as obras literárias, e essa abstração chamada “Brasil”. Um monumento que se ergue sozinho e não conversa com ninguém. Tais silenciamentos constituem uma verdadeira mutilação da história intelectual brasileira, para a qual o próprio Candido tanto contribuiu, com textos como “Literatura e cultura de 1900 a 1945” e “A sociologia no Brasil”.
Não existe história intelectual depois de Antonio Candido? Ele próprio não é parte da história? Certamente não é esse o caso. Em Destinos mistos (Companhia das Letras, 1998), por exemplo, Heloísa Pontes analisou a produção da Revista Clima, fundada por Candido em 1940 juntos de outros intelectuais de monta, como Paulo Emilio Salles Gomes e Gilda de Mello e Souza. O gesto de Pontes ajudou a situar Candido no contexto histórico e social em que se deu sua formação — para usar um termo caro ao crítico paulista. Em A tradição esquecida (Editora UFMG, 2002), Jackson destacou a importância da produção sociológica de Candido, mais conhecido por sua crítica literária, e tem se dedicado a explicar as diferentes interlocuções de Candido com a sociologia uspiana.
Mais recentemente, reavaliações críticas têm combinado a história intelectual com revisões dos conceitos pelos quais Candido é conhecido. Em Para além das palavras (Editora UNESP, 2015), Anita Martins Rodrigues de Moraes empreendeu uma extensa releitura da obra de Candido e identificou nela a persistência de uma hierarquia cultural eurocêntrica. Moraes ajudou a editar o dossiê “Estranhando a teoria empenhada de Antonio Candido”, publicado na revista criação & crítica em 2020, que reuniu diversos artigos que questionam, atualizam e flexibilizam as teorias de Candido sobre a literatura e a cultura brasileiras. Esses ensaios põem o pensamento de Candido à prova no confronto com perspectivas feministas, identidades indígenas, e literaturas “marginais”. Mesmo fora do Brasil, a obra de Candido tem sido alvo de recepções e releituras que adicionam camadas às ideias do intelectual. Um exemplo recente é Decolonisations of Literature (Liverpool University Press, 2022), de Stefan Helgesson, que contrasta as atitudes “pós-coloniais” de Candido com as de críticos sul-africanos. Helgesson se espanta diante do silêncio de Candido a respeito da literatura e do pensamento negros brasileiros, seguindo a pista de Mário Augusto Medeiros da Silva.
Quem buscar se informar sobre esses desenvolvimentos a partir das reedições da Todavia ficará decepcionado. Não existe, nos livros nem no site, nem sombra do debate vivo e atual a respeito da obra de Candido e da história na qual ela se insere. Não acuso, aqui, os autores dos textos, pois desconheço a natureza do briefing que lhes foi enviado pela editora. Mas vejo em todo esse fenômeno — a ausência de paratexto nas reedições, a afirmação de uma atualidade atemporal, o tom celebratório, a supressão dos debates, o apagamento das comunidades intelectuais — algo sintomático, num primeiro momento, do significado da pessoa de Candido na esfera acadêmica brasileira. O prefácio que Luiz Costa Lima escreveu para o livro de Anita Moraes oferece uma pista. Nesse texto breve, Costa Lima acusa o “estéril e frequente louvor indiscriminado” da obra de Candido, que pareceria impassível de críticas ou ponderações. Ironicamente, o próprio Costa Lima assume um tom cheio de dedos ao se referir ao crítico, afirmando que “a correção de sua conduta ético-política o torna a figura do intelectual brasileiro contemporâneo por excelência”. A canonização de Candido, incontornável no sentido intelectual, assumiu um sentido hagiográfico. Santo Antonio Candido é o exemplo a ser seguido, e sua obra é a última profecia, depois da qual não se pode, ou deve, dizer mais nada. O Candido de carne e osso, porém, generoso tanto nos elogios como nas desavenças, certamente faria algo distinto — como fizeram múltiplas gerações de intelectuais brasileiros depois dele.
Num segundo momento — o momento decisivo —, esse fenômeno é também sintomático de algo que vai muito além de Candido: a figura do patriarca letrado como arquétipo do intelectual brasileiro. Desde o primeiro anúncio das reedições, a Todavia insiste em situar Candido como “intérprete do Brasil”, ao lado de Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, e Caio Prado Jr — autores que o próprio Candido ajudou a canonizar em seu prefácio de 1967 a Raízes do Brasil (José Olympio, 1936). Essa associação é de fato iluminadora. Todos eles descendentes de oligarquias agrárias; esses quatro intelectuais — em que pesem suas distintas orientações políticas — partilhavam uma sensibilidade patriarcal sobre a sociedade brasileira, sua história e seus problemas. E eles são, aqui mais uma vez, os protótipos do “intérprete do Brasil”, ou seja, do intelectual privilegiado para explicar o país. Embora esforços recentes tenham tentado expandir o rol de intérpretes autorizados, aqueles três autores permanecem o modelo, e agora Candido vem se juntar a eles. Esse talvez fosse o grande gesto editorial da Todavia: ungir Candido como O Quarto Intérprete. Podemos sonhar com um mundo em que a Todavia de fato o levasse às últimas consequências. Quais seriam, por exemplo, os diálogos possíveis entre a obra de Candido e Racismo Brasileiro: Uma história da formação do país (2022), de Ynaê Lopes dos Santos, também publicado pela editora? (Repare na palavra “formação”, deslocada da posição de destaque, mas ainda presente).
No entanto, o que passa é que, ao associar Candido aos “intérpretes do Brasil”, a Todavia o associa também a um projeto de país, cuja subjetividade privilegiada é a do patriarca branco. Ao reeditar a obra sem mais apontamentos, a editora chancela a continuidade de suas interpretações, e por extensão da sociedade à qual aquela obra se dirigia. Ao apagar a história das respostas, favoráveis ou desfavoráveis, a Candido, a editora trata a palavra do intelectual patriarca1 como lei soberana: não existe resposta ou sequer comentário possível, a não ser como resumo e redundância. Quero insistir que tudo isso vem não necessariamente da obra de Candido, mas da maneira como ela está sendo reeditada. Como vimos com Chakrabarty, o erro é o âmago do grande pensador. Ao negar até mesmo a possibilidade do erro, nega-se também a vitalidade possível de uma obra histórica.
Thomaz Amancio é doutorando na Universidade de Chicago.
- Em seus diários, o intelectual uruguaio Ángel Rama descreve o professorado de Letras da Unicamp — discípulos de Candido, de quem Rama era amigo — como os “belos filhos e filhas” de Antonio Candido. ↩