Michel Foucault, O Enigma da Revolta: entrevistas inéditas sobre a Revolução Iraniana (n-1 editora, 2019).

A Revolução Iraniana permanece um grande e desconhecido domínio para o público leitor brasileiro. Comparativamente aos acontecimentos que ocasionaram o nascimento da República Iraniana em 1979, há um grande déficit de escritos a respeito, seja de autores brasileiros, seja de estrangeiros. Tome-se, por exemplo, Ervand Abrahamian – não há sequer uma única obra traduzida para o português desse que é o mais notável historiador iraniano de sua geração. Essa carência de publicações, juntamente a uma generosa dose de orientalismo, se reflete, inclusive, entre o público que se supõe mais bem informado sobre o Irã e o assim chamado “Oriente Médio” (nomeadamente, leitores habituais de periódicos). Nesse imaginário coletivo pleno de lacunas, o Irã é o país dos aiatolás, das ambições nucleares, do discurso virulento anti-Estados Unidos – um construto de décadas de jornalismo e discurso político que fez com que “xiita” persistisse como sinônimo particularmente pejorativo (e decerto preconceituoso) de “fanático” ou “extremista”. Mas, nesse mesmo imaginário, o Irã é também o país das paisagens das lentes poéticas de Abbas Kiarostami, e de recentes reportagens turísticas que tentam romper com uma imagem estereotipada do país. Entretanto, costumam recair no mesmo orientalismo de sempre. Nada se fala para além disso. Quem foi Ali Shariati, intelectual de esquerda (porém anti-marxista), tido como um dos pais da deflagração do processo revolucionário no país? Ou Mehdi Bazargan, outro notável e moderado primeiro ministro indicado pelo Aiatolá Khomeini, findo o governo do Xá Reza Pahlevi?


Michel Foucault em frente a protesto em apoio a trabalhadores imigrantes, Paris, 1973 (Foto original © Gilles Peress)

Não se deve esperar resposta extensa alguma quanto a essas questões em O Enigma da Revolta: entrevistas inéditas sobre a Revolução Iraniana, de Michel Foucault, com organização, tradução e apresentação de Lorena Balbino, e um extenso ensaio de Christian Laval fazendo as vezes de posfácio. A bem dizer, o livro não trata propriamente da Revolução Iraniana, mas do engajamento de Foucault com ela. Mais que isso, consiste em uma resposta do filósofo – bem como de Laval, em ensaio elogioso em defesa de Foucault – às críticas suscitadas sobre seu apoio à revolução. Tais críticas advinham sobretudo de certa esquerda francesa, parte da qual é alvo de algumas das palavras mais cortantes de Foucault ao longo de sua obra, e exceção não é feita aqui.

O principal do livro consiste em
duas entrevistas inéditas em português: uma publicada apenas em 2013, em árabe,
e outra parcialmente em 2018, em uma revista francesa. As entrevistas não foram
publicadas em Ditos e Escritos (1994),
portanto, e figuram aqui em toda sua riqueza de conteúdo. No livro, contamos
com a transcrição inclusive de trechos que Foucault pediu que fossem
suprimidos, pois não estariam suficientemente claros ou bem desenvolvidos pelos
critérios do filósofo: tudo isso apropriadamente indicado, fruto do excelente
trabalho de Lorena Balbino, que também incluiu generosas notas que muito ajudam
àqueles que estiverem pouco familiarizados com o tema.


Mas de onde veio essa peculiar ligação de Foucault com a Revolução Iraniana? Michel Foucault esteve no Irã durante dois breves períodos – de 16 a 24 de setembro de 1978 e de 9 a 15 de novembro do mesmo ano. Durante esse período, o pensador serviu como repórter do jornal italiano Corriere dela Sera, especificamente para tratar da crescente revolta que lhe fascinava. Essas duas breves estadas de Foucault coincidiram com pontos de máxima tensão logo antes da queda do Xá, em janeiro de 1979, que encerrou 2.500 anos de ordem monárquica sobre aquele território. No primeiro período, Foucault chegara ao Irã apenas dois dias após a chamada Sexta-Feira Negra, na qual em torno de 80 manifestantes sucumbiram aos disparos de metralhadora das forças da monarquia. A primeira entrevista do livro foi feita ao final de 1978, em data não indicada, para o periódico Le Nouvel Observateur; a segunda, concedida ao acadêmico e jornalista libanês Farès Sassine em agosto de 1979, com a Revolução Iraniana encaminhando-se para sua consolidação. O país era tutelado pelo aiatolá Khomeini e tinha Mehdi Bazargan como primeiro ministro. Entre as duas estadas, Foucault conheceu pessoalmente Khomeini, quando o líder iraniano ainda estava exilado nos arredores de Paris. Logo depois das publicações no Corriere dela Sera, o filósofo foi acusado de ser condescendente com os teocratas e de flertar com o obscurantismo. A posição na qual o intelectual se encontrava não era das mais confortáveis: tendo se afastado do Partido Comunista Francês alegando insuportável antissemitismo e homofobia, viu seu nome relacionado, durante bom tempo, a um regime autoritário que punia (e pune) com pena capital os homossexuais e cuja aberta oposição ao Estado de Israel não raro é acompanhada de antissemitismo manifesto. Como Foucault chegou ao Irã é algo que remonta a acontecimentos no país a partir do ano de 1963.

Nesse ano, o Xá Reza Pahlevi
iniciou o que denominara de “Revolução Branca”, porque presumidamente pacífica.
Tratava-se de um processo em marcha forçada de modernização e ocidentalização –
se é que no caso seria possível falar das duas coisas separadamente. Ao
nacionalismo que fazia uso de simbologia persa em detrimento de referências
islâmicas, o Xá conjugou um alinhamento pró-ocidente especificamente
americanófilo. Era uma ditadura atroz, que contava com uma temida polícia
secreta – a SAVAK, de inegável proximidade com a CIA – para reprimir
dissidências políticas: de movimentos em defesa da democracia liberal a
teocratas islâmicos conservadores, passando por diversos matizes de esquerda.

Encarceramento, tortura e exílios
multiplicavam-se sob a monarquia. Ao mesmo tempo que a economia iraniana
crescia, aprofundava-se a desigualdade entre camponeses despossuídos que migravam
para centros urbanos e uma elite cada vez mais ostensivamente ocidentalizada. Nesse
ambiente aparentemente fértil para a esquerda marxista, intelectuais laicos e
religiosos, acadêmicos e clérigos, começaram a despontar como figuras políticas
importantes. Um deles era Ali Shariati, sociólogo professor em Teerã, muçulmano
devoto e defensor de uma interpretação revolucionária do islamismo xiita: à
esquerda, porém defendendo uma sociedade baseada em “valores islâmicos”.

Shariati era leitor de Frantz Fanon – fora, inclusive, tradutor de diversas de suas obras para o farsi. Saiu em defesa dos marxistas iranianos por sua preocupação com a desigualdade – considerava, entretanto, o marxismo uma “falácia ocidental”, incapaz de responder à altura dos anseios do povo iraniano. Seu ideário pós-colonialista e anti-imperialista disseminou-se, foi interpretado e reinterpretado, apropriado e reapropriado em diversos círculos intelectuais e políticos iranianos, por vezes inadvertidamente. Em 1977, o país vivia um período de relativa e duradoura prosperidade, e a economia encontrava-se aquecida com a elevação do preço global do petróleo. Juntamente, o crescimento da inflação dificultava a vida dos iranianos mais pobres. Uma série de protestos e atos de desobediência civil de diferentes grupos – incluindo marxistas revolucionários – começou a se alastrar pelo país, contestando o autoritarismo e a censura do Xá e pedindo respostas firmes aos crescentes problemas sociais. Shariati estivera preso duas vezes durante a ditadura de Pahlevi, a última delas por um ano e meio em solitária. Findo o seu encarceramento, Shariati exilou-se na Inglaterra. Pouco tempo depois, morreu em Southampton após ataque cardíaco, suscitando inclusive teorias conspiratórias sobre seu falecimento precoce durante um período tão conturbado. A repressão e as prisões iranianas já eram conhecidas por Foucault devido ao seu ativismo na área, e a rápida mudança de ânimos, que levou enfim à revolução, lhe causara fascínio.

A revolta contra e a
impopularidade da ditadura de Reza Pahlevi cresceriam rapidamente na mesma
medida da repressão. Em meados de 1979, vendo seu governo se tornar
completamente insustentável, o Xá vai para o exílio. Khomeini, por sua vez,
volta do exílio no início de fevereiro, sendo recebido por 5 milhões de pessoas
em Teerã.

Imediatamente após seu retorno, Khomeini aponta Mehdi Bazargan como Primeiro-Ministro do governo interino. Bazargan era um engenheiro de formação, muçulmano devoto, e um dos intelectuais mais respeitados do Irã. Preso diversas vezes por seu ativismo político durante o período ditatorial precedente, Bazargan foi, durante toda a sua participação na política, defensor de uma democracia liberal com valores islâmicos. No primeiro dia de abril de 1979, 95% dos eleitores iranianos votaram em referendo a favor de substituir a monarquia por uma república islâmica. Mehdi Bazargan permaneceu primeiro-ministro até pouco depois da entrevista de Foucault a Farès Sassine: sua renúncia se deu logo após a tomada da embaixada dos EUA por um grupo de estudantes universitários apoiadores de Khomeini, episódio que acabou durando 444 dias e que contribuiu em muito para a visão que a maior parte do ocidente e da imprensa tem do Irã hoje. Mesmo decepcionado com os rumos da Revolução e incapaz de contornar a crise, Bazargan continuou ativo na política e, sem renunciar às suas posições, permaneceu um respeitado membro do parlamento até 1985. Em 1980, temendo um levante similar no Iraque – único outro país de maioria xiita, porém majoritariamente árabe –, Saddam Hussein invade o Irã. Os oito anos de conflito causaram a morte de entre 200 mil e 1 milhão de combatentes e ao menos 200 mil civis, deixando um legado até hoje bastante conhecido. No final das contas, os intelectualmente influentes Shariati e Bazargan não viram seus ideais constituir a maior parte da República Islâmica, cuja arquitetura foi obra de clérigos conservadores.


O Aiatolá Khomeini entre Akbar Hashemi Rafsanjani, à esquerda, e Mehdi Bazargan, à direita (Foto original © IICHS.ir)

Nas entrevistas, Foucault se vê
(e de fato foi, em grande medida) injustamente acusado de apoiar
irrestritamente o regime teocrático dos aiatolás – que contou, no entanto, com
vasto respaldo popular – e afrontado por acusações de simpatia pelo
obscurantismo, pelo irracionalismo e pelo vitalismo em seu pensamento,
sobretudo por falar de uma noção de espiritualidade na política e por sua
concepção de revolta.

O centro gravitacional das entrevistas está nas tentativas de esclarecer e debater o conjunto de ideias sobre espiritualidade e revolta, às vezes incipientes, frente àqueles que Foucault tem como detratores (não raro dando nome aos bois). Esse caráter ainda experimental, de ideias nascentes, cai muito bem ao formato de conversa das entrevistas. Em vez de múltiplos vaticínios – como fizeram tanto vários de seus críticos quanto o próprio Foucault –, o leitor encontrará uma conversa percolada de provocações e questionamentos. Nem tudo está bem delineado – registros de oralidade, repetidas tentativas de definição de uma mesma coisa, sentenças com cortes abruptos no raciocínio: assim se desenrolam as conversas com Foucault, levando o leitor a especular juntamente do entrevistado, a questioná-lo e a e questionar-se, tal como faz a boa filosofia.

Foucault defende que, na maioria
das revoltas, sublevações e revoluções no ocidente, viu-se a presença de certa
espiritualidade em sua condução. Essa espiritualidade teria relação com a ideia
de que, para transformar o mundo, para que o mundo novo venha, há de se
transformar a si e imbuir-se de vontade e fervor necessários, e mesmo (e,
sobretudo) dispor-se à morte por tal transformação vindoura.

Como o próprio filósofo aponta,
não se trata de novidade alguma na história da cristandade. De valdenses a
utraquistas, quakers e anabatistas, aos movimentos messiânicos no cristianismo
ocidental (e devemos lembrar-nos de Canudos, com todas as suas peculiaridades):
eis os exemplos mais fáceis de mencionar. Essa espiritualidade tomara parte até
mesmo durante a Revolução Russa, para então, justamente a partir de seu
desenrolar, ser veementemente negada em nome de algum materialismo da
filosofia. Seria justamente essa noção de espiritualidade, esquecida nos
levantes ocidentais (mas outrora tão presente), que Foucault viu resgatada na
Revolução Iraniana. Poderíamos ainda lembrar a Teologia da Libertação na
América Latina, que, entretanto, parece passar ao largo de Foucault.

Para Foucault, essa
espiritualidade é distinta da religiosidade porque teria um fervor espiritual que
não guarda estreita relação com a religiosidade em si. Esta, organizada,
codificada, operando em hierarquias, está fora dos interesses políticos de
Foucault, que preza por um caráter que considera espontâneo, horizontal e de
massas, contrastante em motivações com as explicações tradicionais das revoltas
que certo marxismo vulgar (e, à época, oficial) ofereceria, o qual reduziria
tudo a interesses materiais e luta de classes. Foucault chega a afirmar que a
única revolução ocidental que lograra sem esse acento na ideia de
espiritualidade teria sido a Revolução Francesa. Decerto, um julgamento
bastante difícil de aceitar para quem, ao contrário de Foucault, pensa
dialeticamente. Para o filósofo francês, a própria Revolução Iraniana estaria
aí para atestar o que ocorreria quando tanto a esquerda tradicional como as
forças do “progresso” ocidentalizador descuram-se de dar respostas
satisfatórias às questões da espiritualidade das massas.

Foucault aparenta a todo o
momento buscar se desvencilhar de uma aproximação com algum vitalismo ou alguma
filosofia do ser, com insistência que traz ruídos de fundo. Aponta, por
exemplo, que teriam sido as leituras de Ernst Bloch que lhe impeliram a lançar
um olhar sobre a Revolução Iraniana. Se por um lado Bloch é considerado um
autor marxista, não se pode tê-lo como dentre os mais convencionais sob essa
rubrica: seu conhecido livro sobre a revolta conduzida pelo líder anabatista e
camponês Thomas Müntzer como um “teólogo da revolução” não se encaixa
confortavelmente dentro das leituras marxistas outrora oficiais. Daí resulta
que, por mais que Foucault em muitos momentos pareça conseguir enfraquecer essa
aproximação com filosofias do ser, parece resistir algum vínculo. De fato, a
incipiência de muitas das ideias não auxilia na questão; o posfácio, ao
reiterar as “disposições revolucionárias do corpo utópico”, tampouco dá a
entender, ao menos em um primeiro exame, o distanciamento pretendido.

Se, por um lado, a argumentação
de Foucault sobre a impropriedade de uma vinculação necessária entre
espiritualidade e religião convence, por outro, seria ainda mais interessante –
ainda que a tarefa não seja a proposta das entrevistas, nem das contribuições de
Foucault ao Corriere dela Sera – uma
tal ideia de espiritualidade melhor delineada e confrontada com o plano
histórico no caso iraniano. Isto é – em que medida as separações entre
espiritualidade e religião, religiosidade e espiritualidade, entre a religião
organizada e o movimento espontâneo das massas, ocorreram realmente na
Revolução Iraniana. Dialeticamente – e daí fora do registro foucaultiano –
poderia se perguntar: quais as intersecções entre essas categorias, e quais as
contradições que as articulam, especialmente quando expostas ao caso
particular?

Nenhuma dessas tarefas poderia ser cobrada de Laval – que cumpre dignamente o propósito de um ensaio: questionar e questionar-se –, nem de Foucault; falecido em 1984, não teria tempo de lançar seu agudo olhar histórico sobre os desdobramentos da Revolução. Segundo seu amigo Paul Veyne, disse-lhe Foucault, após encontrar-se com Khomeini em Neauphle-Le-Château, que se o deveras fascinante aiatolá tomasse o poder e aplicasse o seu programa de governo, “seria de uma idiotice de fazer chorar”.1 A Revolução Iraniana, juntamente de uma nova ideia de subjetivação política, trouxe consigo um projeto de poder também regional. À influência dos Estados Unidos (o Grande Satã, para Khomeini) e da União Soviética (o Pequeno Satã), o Irã se contrapôs fazendo da paranoia do inimigo externo uma política de Estado. A nova forma de subjetivação política, segundo Foucault (e de fato), escapa a muito do aparato conceitual ocidental, e por isso exige do intérprete do acontecimento categorias e conceitos novos e próprios. Essa subjetivação, conforme pontua Farès Sassine, abriu uma entrada inédita do Islã à política moderna: o legado de Shariati ou de Bazargan, e de outros em todo o mundo muçulmano que buscam e buscaram conjugar o islã com a modernidade política. Por isso mesmo, compreender a Revolução Iraniana – um enigma a nós, tal como no título do livro – pode provar-se fundamental para interpretar essa periferia do mundo que hoje convulsiona, cujas ondas de choque chegam e são sentidas no ocidente, ocasionando múltiplos estranhamentos em uma época na qual as crises são regra, e não exceção.


Francisco López Toledo Corrêa é bacharel em Relações Internacionais, posteriormente mestre e doutorando em Filosofia na UNIFESP, onde se dedica à obra de Theodor Adorno.



  1. Paul Veyne, Foucault: seu pensamento, sua pessoa (Civilização Brasileira, 2011), p. 221