A filosofia e a psicanálise não resistem ao mito de Édipo. Aristóteles, Hegel, Nietzsche, Freud e todos os helenistas da história humana já se debruçaram sobre a tragédia de Sófocles. O que uma nova tradução de Édipo (desta vez não Rei, mas Tirano) teria a nos dizer de novo?
Sófocles, Édipo Tirano. Tradução Leonardo Antunes (Todavia, 2018).
Mais uma tradução de Édipo, mais uma resenha crítica, mais um escrito não-especializado sobre uma obra clássica. Aristóteles, Hegel, Nietzsche e Freud já escreveram sobre Édipo. Todos os helenistas da história humana tiveram que se debruçar sobre a obra sofocliana, esta em especial. A filosofia contemporânea e a psicanálise não resistem ao mito, que, apesar de seu caráter de ficção antiga, é capaz de contemplar questões muito concretas sobre o que é ser um sujeito hoje. O cinema, representado de maneira singular por Pier Paolo Pasolini, não se furtou a ficcionalizar a tragédia grega, isso sem falar nas diversas encenações teatrais do mito. Em 2018, a editora Todavia lançou uma nova tradução desta obra de Sófocles, intitulada Édipo Tirano pelo tradutor, Leonardo Antunes. Mais uma tradução de Édipo?

A Revista Porto Alegre me faz o
gentil convite de escrever sobre esta edição específica. Eu, que não sou
especialista em tragédias (não as clássicas, talvez apenas as contemporâneas,
costuradas em mesas de bar), que não sou psicanalista, nem filóloga, apenas
interessada em letras – um território amplo, abrangente exatamente como soa.
Surgiu, então, uma pergunta central: ainda há algo de novo a ser dito sobre Édipo? Invertendo a questão fundamental:
se eu não tenho o que falar sobre Édipo, o que ele teria a falar sobre mim?
Eu já havia lido a tragédia quando
adolescente, mais pelo interesse em saber um pouco mais sobre o que as pessoas
queriam dizer quando se referiam ao Complexo de Édipo. À época, eu não
conseguia sequer diferenciar o que era Édipo
enquanto tragédia e o Édipo como complexo, como interpretação freudiana da
tragédia grega sofocliana. Naquele momento, a leitura da obra de Sófocles não
me disse muito. Nem sobre tragédias, nem sobre complexos. A minha primeira leitura
se assemelhou às de artigos do Wikipédia: o sujeito lê, entende, mas não
compreende realmente. Soa, mas não ressoa. O tempo passou e Édipo se tornou
persistente por conta da filosofia, da teoria crítica e da psicanálise. A minha
segunda leitura do texto, agora na versão traduzida por Leonardo Antunes, me
levou a pensar questões novas sobre o lugar que a obra de arte ocupa e sobre o
que ela pode falar sobre quem somos, tanto tempo depois.
A primeira delas me parece a mais
fundamental, porque foi nela que me assentei para justificar a tarefa de
escrever sobre Édipo. O que precisamos considerar de maneira central quando
queremos traduzir ou escrever sobre um clássico é que os sentidos da arte, de
maneira ampla, e os dos clássicos, mais especificamente, nunca se encontram
encerrados naquela criação sobre a qual queremos pensar. Os significados das
criações ultrapassam as próprias criações. Os clássicos (mas não só eles)
conversam de maneiras diferentes com os tempos que os sucedem e, por mais que
já existam diversas traduções de Édipo
e reflexões sobre Édipo, não podemos esquecer que os sentidos de uma obra não
se esgotam; com a passagem do tempo, os modos como as pessoas a entendem e
também se autocompreendem se transformam. O espaço relacional muda. Da mesma
forma, nenhum escrito sobre Édipo guarda o monopólio de seu sentido, justamente
porque as narrativas, e também as autonarrativas, são constantemente
cambiantes.
Nesse sentido, concordo com Umberto
Eco, também citado pelo tradutor Leonardo Antunes em seu prefácio à tradução,
quanto à sua ideia de que a obra de arte possui um sentido que não está
previamente definido pelo autor, mas é construído no contato do leitor com a
obra. As criações só são acessadas através de um significado que extrapola a
própria criação: a obra de arte sofre de uma despossessão, portanto. Como
escreve Antunes ainda no prefácio, cada leitura, cada análise e cada tradução
de uma obra de arte contribuem para uma coletânea de possibilidades de
significação sobre esta obra. Por mais que seja inegável o volume de escritos
sobre Édipo, há sempre algo de
singular em cada um deles, porque foram escritos por pessoas situadas em
lugares marginais ou privilegiados, talvez muito jovens ou velhas, quem sabe
negras ou asiáticas, com formações mais ou menos ortodoxas. O lugar ocupado por
quem escreve ou traduz também forma o sentido da tradução ou da crítica. O
significado de uma obra está sempre dentro e fora dela, porque ele é sempre
mediado.
Além do fato de que uma nova tradução sempre se justifica, uma vez que ela ampliaria o nosso conjunto de leituras e releituras, vale a pena dizer que, nesta tradução específica, o tradutor resolveu intitular a obra Édipo Tirano, e não Édipo Rei, como normalmente é traduzida. Isto porque, para ele, a escolha canônica (traduzir o livro como Édipo ou Édipo Rei) apagaria um problema inerente à própria peça: o estatuto de poder de Édipo, que só é chamado pelo coro como “rei” (βασιλεύς / Basileus) depois que ele se revela filho de Laio. Antes disso, o protagonista era chamado pelos outros personagens por vários títulos, a depender da afinidade entre eles. No entanto, a palavra Τύραννος / Tyrannus encontra-se em diferentes momentos da tragédia, inclusive no título da peça (Οἰδίπους Τύραννος / Oedipus Tyrannus). Traduz-se normalmente esta palavra como “rei”. Porém, como nos explica o tradutor, Τύραννος em gregoé aquele que sobe ao poder não por voto nem por sucessão hereditária legítima, como ocorre com os reis, mas por um golpe.Por isto, para Antunes, a tradução mais adequada da palavra grega Τύραννος seria “tirano”, não “rei”. Para ser rei (βασιλεύς), seria preciso que Édipo tivesse assumido o trono por sucessão hereditária ou por voto – algo que só fica claro posteriormente, quando ele se revela filho de Laio e é, então, finalmente, chamado de βασιλεύς pelo coro. Por último, vale enfatizar que esta tradução faz uma recriação em português do ritmo dos coros em grego. Assim, se a peça vier a ser encenada, será possível criar uma performance musical na interpretação. Mas, mesmo que o texto não seja apresentado, a tradução reproduz certo ritmo do texto grego e emula aspectos estilísticos do original.1
Talvez pelos preciosos comentários
do tradutor ao final do livro, quiçá devido ao posfácio da psicanalista Maria
Homem, dei-me conta de que uma interpretação renovada de Édipo precisa apontar
para o fato de que alguns dos nossos problemas atuais não são exatamente novos.
Entro aqui, então, na segunda questão mais interessante surgida durante a minha
releitura desta tragédia: como Édipo fala sobre quem somos hoje? As relações
complexas entre liberdade e servidão e entre autonomia e heteronomia, tão
centrais nos debates filosóficos atuais, mas também na forma como lidamos presentemente com as nossas
próprias vidas, já se encontram na tragédia sofocliana.
Isto porque, por mais que Édipo tenha tomado determinadas decisões segundo a sua própria deliberação consciente, a sua história nos aponta para a força inegável da heteronomia na constituição de nossas histórias. Em toda a obra, vê-se uma oscilação de Édipo entre compreender a sua tragédia como resultado de um desígnio divino ou como consequência dos atos executados segundo a sua própria agência racional. Em um trecho específico, ele dá-se conta de ter sido o assassino do pai, no entanto Édipo oscila ao tentar apontar a responsabilidade pela tragédia em questão. Inicialmente, começa a considerar Apolo o responsável por seu destino, mas acaba concluindo que o responsável pelo assassinato foi justamente ele (“a própria mão que o fez foi não / alheia, mas minha!”), como vemos nos seguintes versos (v. 1329–31):
Apolo, ó irmão! Apolo que o fez,
Que males fez dos males meus, que fez a dor, a minha dor!
E a própria mão que o fez foi não
alheia, mas minha!
Neste ponto, Édipo se compreende
como agente autônomo e vítima do
destino ao mesmo tempo. Aqui, ele percebe que foi justamente através de sua
ação autônoma que foi capaz de realizar um desígnio que, por outro lado,
ultrapassava aquilo que queria almejar com as capacidades de sua agência
racional: não realizar as premonições
do oráculo. Trata-se de um Édipo específico, no entanto. O Édipo que busco
apresentar, dividido entre a autonomia e a servidão, não é uma versão unânime
da tragédia grega. O Édipo freudiano, por exemplo, não se mostra dividido entre
a própria agência e as deliberações do destino. Na leitura de Freud, Édipo deseja, consciente ou inconscientemente,
matar o pai e unir-se à mãe. Para o helenista Breno Barristin Sebastiani, no
prefácio à edição da obra, a leitura de Freud é criativa – a noção de que o
herói realmente desejava fazer o que fez não se encontra nem no mito arcaico,
nem na peça clássica. Para ele, “por mais fecunda que a leitura freudiana possa
ter sido para a psicanálise, ela falha, entretanto, como chave de interpretação
da tragédia, por comprometer o entendimento de pelo menos dois de seus pontos
cardeais: acrescentar a vontade (consciente ou não) é tirar de cena o acaso (tykhe) e a ironia dramática (os momentos
em que o personagem enuncia, ou ouve, a própria verdade que procura sem se dar
conta de estar cara a cara com ela)” (p. 9).
A questão que Sebastiani nos apresenta é bastante importante. Se Édipo realmente desejava fazer o que fez – matar o pai e unir-se à mãe –, alguns aspectos fundamentais da tragédia em questão deixam de ser contemplados. Seguindo a interpretação freudiana de que Édipo, no fundo, desejava fazer o que fez, perdem sentido os fatos que resultaram do mero acaso, como o acontecimento em que Édipo se encontra com o Rei Laio em uma estrada entre Corinto e Tebas e que, também por golpe do acaso, o mata. E também perdem força aqueles momentos nevrálgicos da tragédia, em que Édipo chega no cerne da solução do enigma a partir de sua própria fala, mas sem se dar conta disso. É o caso do trecho em que ele acaba revelando o possível laço familiar entre o assassino e o assassinado, sem saber que, mais tarde, descobriria o teor de verdade em uma fala aparentemente banal (v. 810–15):
Pagou caro por isso: com um golpe curto
de cajado por esta mão, rolou direto
do carro para a estrada, onde caiu de costas.
Matei os outros todos. Mas, se esse estrangeiro
tiver com Laio um laço familiar que seja,
qual homem é mais miserável que este aqui?
A visão de Freud assenta-se na
interpretação de que Édipo fez o que fez segundo um desejo consciente ou
inconsciente. Outra interpretação possivelmente mais adequada, que poderia
estar assentada ainda na psicanálise, mas que não despotencializaria os elementos
de ironia trágica e as peripécias do acaso, seria aquela que veria a história
de Édipo como a história de todos nós. Nós, que não somos livres de maneira
irrestrita, mas que justamente somos livres apenas quando precisamos incluir no
nosso projeto de liberdade aquilo que à primeira vista parece constrangê-la,
mas que, no fundo, a possibilita. Nós, que só podemos imaginar um futuro a
partir do nosso presente – o que faz com que a imaginação sempre dependa de
muitas condições. Nós, que podemos planejar as nossas vidas infinitamente, mas
que também podemos nos deparar com situações que, de fato, são capazes de
arrastar os nossos planos. Assim como Édipo, nós também somos assombrados por
um desígnio que, se já não é mais divino, se
nos mostra como social ou familiar. A heteronomia é mesmo poderosa em Édipo, mas também nas nossas vidas.
Assim como acontece com as nossas
tragédias, a de Édipo não resultou completamente de sua agência autônoma
(consciente ou inconsciente, como pensou Freud), nem apenas do destino. A vida
de Édipo, nem a nossa, não se resolveu em um passe de mágica, como se fôssemos
marionetes do destino. (É possível defender ambas as interpretações, no
entanto). A meu ver, é possível compreender a narrativa em questão a partir de
uma terceira via, segundo a qual os elementos do acaso só puderam entrar em
cena justamente porque Édipo se movia
a partir de sua própria agência. O problema, mais dialético do que gostaríamos,
reside mais em uma questão de graus do que propriamente segundo algum princípio
de exclusão, conforme o qual só seria possível ser livre ou servo, autônomo ou
alienado, e não um pouco dos dois. No fundo, parece que só somos autônomos
mesmo dentro de um campo restrito de possibilidades: livres até certo ponto.
O que é interessante de perceber na tragédia de Édipo é o peso do destino no direcionamento dos acontecimentos. Por mais que Jocasta zombe do oráculo dos deuses (v. 857–858), ao dizer que não olharia nem para cá, nem para lá por conta de um vaticínio, e por mais que Édipo se auto-intitule filho do Acaso, e não do Destino, o que vemos durante toda a tragédia é uma crença coletiva nas profecias. É por conta dos oráculos que Jocasta abandona o filho, a fim de que não se cumpra a premonição de que Laio seria assassinado por ele. Do mesmo modo, foi por causa do aviso do oráculo de que Édipo mataria o pai e se casaria com a mãe que o personagem principal da tragédia foge de Corinto em direção a Tebas. O destino não é apenas o gran finale da história, mas é também aquilo que forma as histórias. Ao contrário do que gostaria Jocasta, a história de Édipo mostra, na verdade, sujeitos constantemente orientados pelos vaticínios: mesmo quando há agência, ela é orientada por uma narrativa de rendição a um poder superior. Pergunto-me sobre quem somos hoje, sobre como e se incluímos nas nossas concepções de nós mesmos algo que ultrapassa a nossa vontade livre, o nosso desejo profundo de liberdade irrestrita, e se devemos fazê-lo. Para alguns, talvez já não faça sentido agir segundo autos, búzios, signos, premonições, dogmas. No entanto, para todos deveria fazer algum sentido agir conforme uma ética. Um outro, sim, mas quiçá não divino. Quem sabe social, ou político.
Bárbara Buril é jornalista e doutoranda em Filosofia na Universidade Federal de Santa Catarina.
- Para quem este tipo de informação não diz muito, veja como se configura o ritmo do texto em grego neste vídeo do tradutor Leonardo Antunes, que musicou o ritmo do coro dos versos 151 a 215. ↩