Fruto de sua tese de filosofia concluída em 1977, Por um comunismo transexual (Boitempo, 2023), de Mario Mieli, é considerado uma obra pioneira da teoria queer e continua a ser desafiadora. Em sua primeira edição em português, publicada pela Boitempo, o livro conta com um apêndice crítico que inclui o ensaio “A revolução no corpo”, do jornalista italiano Gianni Rossi Barilli, que reproduzimos aqui. O ensaio de Barilli oferece uma análise profunda do contexto histórico e intelectual que envolve a obra de Mieli, destacando a tentativa ambiciosa de sintetizar teorias de libertação homossexual, marxismo e psicanálise. Além disso, ressalta o papel de liderança natural e carismática desempenhado por Mario Mieli no movimento gay italiano dos anos 1970, bem como sua contribuição para transformar uma experiência pessoal e marginal em uma luta coletiva com implicações universais.

Mario Mieli, Por um comunismo transexual: elementos de crítica homossexual (Boitempo, 2023).
Elementos de crítica homossexual permanece até hoje o ensaio teórico mais importante produzido na Itália na área do movimento de libertação homossexual. Contudo, como muitas vezes acontece com livros importantes, foi muito pouco lido. Teve uma única edição, datada de 1977, e uma circulação muito limitada, atendo-se principalmente ao circuito político gay. Se, portanto, Mario Mieli foi o guia espiritual da ala radical do movimento homossexual italiano, provavelmente o foi mais com seu exemplo vivo e atividade política do que com seus principais escritos. Logo, os elementos por ele destacados serão para muitos, nos dias de hoje, uma descoberta.
Impressiona, em primeiro lugar, o grau de ambição intelectual. A elaboração de uma tese de láurea em filosofia moral na Università Statale di Milano torna-se uma receita para salvar a humanidade do abismo para o qual a empurra a Norma heterocapitalista, uma receita que é aguçada ao retirar do marxismo e da psicanálise o que era necessário para dar corpo (também no sentido literal) às novas urgências de libertação.
Por certo, Mieli era um menino prodígio. Nasceu em 21 de maio de 1952 e não tinha nem vinte anos quando, no início dos anos 1970, foi um dos fundadores do movimento gay na Itália e imediatamente começou a escrever artigos de peso sobre o “verdadeiro” comunismo da liberação homossexual. Tinha uma agudíssima inteligência e uma língua afiada, uma vastidão impressionante de leituras para sua idade e um conhecimento direto do que era dito e escrito fora das fronteiras italianas, por exemplo, na França e na Inglaterra, como uma vantagem adicional. Mas, acima de tudo, ele era um líder natural e tinha carisma para dar e vender. Em consequência, a sua não poderia ser (apenas) a elaboração solitária, brilhante e louca de um sonho. Procurou sintetizar em termos teóricos os resultados de uma experiência em curso, que de pessoal e marginal, como era condenada a ser, historicamente, para todo homossexual, tornou-se coletiva e agora se projetava para o universal, visando atacar a ordem patriarcal moribunda em seu núcleo profundo.
A revolução a partir do corpo, ou melhor, do cu, lugar simbólico privilegiado de nossa recalcada civilidade e gaia porta de acesso à virada de mesa dos valores patriarcais, era uma possibilidade concreta para Mieli e seus companheiros de jornada. Fundava-se efetivamente em um trabalho de elaboração da própria experiência realizado por um grupo de homossexuais, iluminados pelas descobertas do feminismo, que fizeram sua a teoria/prática de partir de si mesmos. “Começamos a compreender melhor quem somos e por que somos reprimidos”, explica Mieli no início do livro (p. 31), “comunicando-nos uns com os outros, conhecendo-nos e encontrando-nos com base no nosso desejo comum, na perspectiva da libertação”.
A empreitada para descobrir a si mesmo, seus próprios problemas e possíveis soluções ocorreu em grupos de autoconsciência, laboratórios de liberação sexual muito em voga nos anos 1970, em que a fórmula “o privado é político” encontrou sua expressão mais concreta. Nem todos, porém, tinham razões urgentes o bastante para questionar sua identidade em análises e debates infindáveis. Os homens heterossexuais da esquerda extraparlamentar, por exemplo, como Mieli nunca deixa de sublinhar clara e ironicamente em seu livro, limitaram-se muitas vezes, no campo sexual, a um progressismo comportamental (o ancestral do politicamente correto) para repropor os esquemas herdados inalterados, em substância, dos seus pais. Os gays e as mulheres certamente estavam mais motivados, ainda que seus caminhos de reflexão fossem paralelos e não se entrecruzassem com facilidade. As relações que de fato existiam também podiam ser turbulentas, com acusações mútuas de misoginia e homofobia, apesar de o feminismo ser um modelo a ser imitado pelos homossexuais revolucionários.
A partir de sua própria vida, esses pioneiros gays do movimento trataram juntos de superar o emaranhado de culpa e necessidades psicofísicas inevitáveis a partir do qual a identidade homossexual se formou historicamente, moldada ao longo dos séculos por padres e depois por psiquiatras como antítese da Norma. Prosseguindo com o trabalho de conscientização, inventaram uma nova identidade, politicamente determinada a influenciar as transformações da identidade humana em geral. O método foi tirar do armário, além das inclinações sexuais genéricas, as respectivas histórias pessoais marcadas pela opressão para inseri-las em um projeto de crescimento coletivo. Com a pequena diferença, em relação ao grupo de alcoólicos anônimos, que nas reuniões de coletivos gays, assim como feministas, vinculava-se a liberação pessoal a um projeto de mudança no mundo, sem o qual essa mesma libertação não poderia ser alcançada.
Mario Mieli e os magmáticos grupos milaneses a que pertenceu entre 1971 e 1976/1977 partiram de seu próprio desejo, de que o conhecer e satisfazer em todas as suas formas era um dever moral, e construíram sobre isso uma teoria revolucionária da qual Elementos representa a mais bem-sucedida síntese.
Para demonstrar o quanto levavam isso a sério, o grupo rapidamente foi ao cerne do problema, colocando no prato o escândalo principal: a feminilidade dos gays. Os coletivos dos quais Mieli foi uma estrela entraram para a história porque o travestimento era sua maneira favorita de fazer política. Talvez não fosse o método mais adequado para obter apoio, mas por outro lado nunca deixou de ser notado. Nas manifestações da esquerda revolucionária eles cantavam palavras de ordem como “El pueblo unido é melhor travestido” e, em vez de Marx, Lênin e Mao Tse-Tung, eles elogiavam Dior, Chanel e Saint Laurent. Não eram muito compreendidos, e é certo que nem sempre se entendiam entre si, até porque a política do travestismo não era só (e talvez nem principalmente) uma questão de roupa. Poderíamos dizer que a estética estava a serviço da moral, e não o contrário, para marcar uma diferença gritante com as evoluções posteriores da arte tecnológica de transformar o corpo. O bigode e a peruca podiam coexistir pacificamente e os hormônios demorariam a vir, ou eram de fato uma outra história. O que importava sobretudo era dar um sinal evidente de ruptura para levantar a cortina que existia sobre a realidade negada do Eros que, extrapolando-se os escritos de Freud para além de suas intenções, se supunha “perverso e polimórfico”.
O mais extraordinário e disruptivo, porém, foi que o modelo de referência para representar essa realidade foi a cultura histórica dos homossexuais mais oprimidos, das bichas desprezadas que, geração após geração, construíram sua própria consciência de si e seu próprio patrimônio de saberes sobre os estereótipos negativos da homossexualidade. As bichas e travestis haviam criado um fabuloso mundo alternativo à margem da sociedade que as rejeitava, cheio de falsas rainhas e falsas divas do cinema que viviam suas misérias com verdadeira nobreza e grande senso de humor. Agora as bichas revolucionárias estavam fazendo suas essas formas e linguagens desse universo do lado B, destacando seu potencial inesperado. Todo o repertório de saltos agulha, penas de avestruz e situações da comédia artística gay, “iluminados” pela consciência revolucionária, assumia uma dignidade e um significado ético completamente novos. Tornara-se uma chave privilegiada para libertar Eros das correntes da repressão. Tornara-se o material de construção da gaia ciência, que, ao liberar com os corpos também os significados, levava a tradição oral dos gays a equiparar-se com a “alta” cultura, com a filosofia, a psicanálise, a política, o destino do gênero humano.
Mario Mieli sintetizava materialmente os termos da questão, conciliando em si mesmo os perfis (raramente coincidentes) de líder político, intelectual refinado e bicha. Deste último, orgulhava-se: “Estou feliz”, escreveu em Elementos (p. 79), “por ser uma bicha óbvia, ‘feminina’: o sofrimento que isso acarreta nesta sociedade é ao mesmo tempo a medida ou, se preferir, o espelho da beleza dura mas frágil e preciosa da minha vida. É um grande destino possuir e tentar viver com clara consciência uma existência que a massa regular, em sua cegueira idiota, despreza e tenta sufocar”.
O homossexual evidente, condenado a existir como um não homem, um híbrido fracassado de masculino e feminino, tornou-se revolucionário ao assumir o defeito de sua feminilidade como instrumento de rebelião, descobrindo então quase com espanto que, além da revolta, abria-se o caminho da libertação. Partindo da opressão histórica da homossexualidade e combatendo-a, chegou à conclusão de que não se tratava de conquistar um gueto ou uma fatia de normalidade, mas de uma mudança de perspectiva geral sobre o modo de viver e compreender o Eros e suas múltiplas consequências na realidade. O que, no entanto, revelou-se de certa importância, como Mieli explicou aos seus camaradas marxistas que “reivindicam a prioridade dos problemas socioeconômicos (estruturais) sobre os sexuais”: “Na base da economia está a sexualidade: Eros é infraestrutural ” (p. 259).
A gaia ciência que Mieli inaugurou com Elementos pressupunha, portanto, que a rebelião dos homossexuais não tinha o objetivo “de alcançar a tolerância social para os gays, mas de liberar o desejo homoerótico em todo ser humano” (p. 99). O homossexual efeminado, ao expor-se, revelou o segredo da feminilidade reclusa em cada homem e ofereceu um indício fundamental para atravessar o espelho e encontrar uma saída para a destruição que o capitalismo, a expressão econômica da Norma heterossexual, promete à espécie e a todo o planeta.
Mas como se poderia generalizar o desejo gay e torná-lo, além disso, a pedra angular de um processo de reestruturação da civilização? Para resolver esse problema, a gaia ciência recorreu à psicanálise, cujos conceitos fundamentais (como os de inconsciente e recalque) se adequavam perfeitamente ao caso. Os homossexuais, vítimas privilegiadas e fonte inesgotável de experimentação para a “ciência da alma”, retomaram o que era deles e colocaram conceitos tradicionalmente usados para reprimi-los a serviço de seu projeto político-existencial.
Mieli parte da observação mais banal – o ódio que a sociedade tem pelos gays – e a lê como o reverso de um desejo negado. As pessoas “normais” odeiam os homossexuais porque (ao menos) inconscientemente querem desfrutar de seus próprios prazeres. A repugnância violenta mascara a repressão de um desejo proibido. A diretriz heterossexual que todos recebem da educação (renomeada, portanto, educastração) se dá em detrimento de outras inclinações eróticas, a começar pela homossexual, que também estão originalmente presentes no indivíduo. Aqui, mais uma vez, a psicanálise vem em auxílio, com o “polimorfismo perverso” da sexualidade infantil hipotetizado por Freud e com a teoria “complementar” da bissexualidade originária. Dessas duas “sugestões” Mieli deriva o conceito de transexualidade, que é o cerne de toda a sua construção. Por transexualidade, explica em Elementos (p. 35), deve-se entender “a disposição erótica infantil, polimórfica e ‘indiferenciada’ que a sociedade reprime e que, na vida adulta, todo ser humano carrega dentro de si em estado de latência ou confinada aos abismos do inconsciente sob o jugo do recalcamento”. A contribuição gay para a revolução consiste justamente em trazer à luz a criança transexual que está enterrada em todos nós. A sua libertação derrubará o capitalismo, fundado na autorreprodução da Norma, e trará uma esperança concreta de felicidade para os seres humanos, permitindo-lhes viver de forma mais sensata o Eros historicamente sublimado no trabalho ou transformado pela frustração em agressividade.
A perspectiva da transexualidade, diz Mieli, torna universal a luta dos homossexuais por sua dignidade e deixa claro que a homossexualidade também é um “primeiro passo” rumo a outra coisa. Somos todos transexuais, no sentido de “ultrassexuais”, e só ganharemos nosso passaporte para o mundo do bem quando deixarmos para trás a ridícula monossexualidade a que a Norma nos obriga, quando tivermos nos reconhecido tanto machos quanto fêmeas e restituirmos ao nosso desejo a polivalência originária.
A transexualidade é a finalidade da luta pela libertação do Eros porque é também a causa, enquanto realidade preexistente, da rígida diferenciação cultural dos sexos e sempre operante, no estado “reprimido”, no inconsciente coletivo. É o fio que une passado e futuro, a profecia que se autorrealiza eliminando os erros (horrores) da civilização. Para atingir o objetivo, será suficiente, portanto, retroceder, passando por sucessivas etapas de despertar do desejo que levam à pansexualidade e, finalmente, a uma espécie de Nirvana erótico em que nem mesmo as fronteiras entre Eu e não Eu são assinaladas com mais precisão nos mapas, a ponto de fazer pensar que em algum lugar existe um Uno pronto a fagocitar o múltiplo em sua totalidade originária e próspera.
O objetivo final, porém, está localizado em um futuro-passado impreciso, enquanto no aqui e agora contam muito as etapas de reconstituição do desejo mutilado. A começar pela homossexualidade. A primeira tarefa histórica a ser enfrentada é a de demolir a fortaleza da heterossexualidade masculina, sobre a qual repousa a ordem patriarcal da injustiça, disseminando o desejo gay. Nesse ponto, Mieli é muito claro e rejeita a posição, embora teoricamente razoável e muito popular entre os amantes da vida tranquila, daqueles que defendiam (e defendem) a necessidade de abandonar imediatamente, como sinal de evolução dos costumes, qualquer rótulo no campo das preferências sexuais. “Dado o contraste histórico concreto entre indivíduos que reconhecem seus próprios desejos homoeróticos e outros que, de maneira oposta, os negam taxativamente” (p. 63), “não se pode hoje evitar distinguir homossexuais declarados de heterossexuais (isto é, de bichas decididamente refoulées). Caso contrário, haveria um perigoso e ilusório achatamento terminológico da real contradição entre heterossexualidade e homossexualidade: nesta noite, nem todas as vacas são gays”.
A libertação, mesmo que se entenda bem que é pacifista, não é pacífica e passa pelo conflito dos homossexuais contra os “normais”. A homossexualidade é a porta de entrada para o poço dos desejos negados porque é a mais poderosa entre eles e é a perversão por excelência. A Norma define-se e torna-se heterossexual, mais precisamente porque exclui a homossexualidade e a condena, utilizando-a como modelo para classificar e excluir outros comportamentos considerados desviantes. “A repressão da homossexualidade”, conclui, portanto, Mieli (p. 139), “é diretamente proporcional à sua importância na vida humana e para a emancipação humana”. Espalhar o desejo gay é (propedeuticamente) necessário para perverter a Norma.

Para ser revolucionário, porém, não basta fazer sexo, mesmo que seja gay. É preciso estarmos conscientes do dever de “derrubar todo o edifício da moralidade” (p. 138) e não nos contentar em passar da perseguição à “segurança” dos guetos comerciais concedida às perversões pela falsa tolerância do capital. Mario Mieli, como Pier Paolo Pasolini, é extremamente duro contra a tolerância repressiva que liberaliza o sexo reduzindo-o a uma mercadoria de consumo alienado, mas enquanto a crítica de Pasolini se baseia na nostalgia poética do passado e em uma previsão pessimista do futuro, a da Mieli, em Elementos, focaliza-se, ao contrário, no desejo de acelerar os tempos confiando no que está por vir.
De fato, um excesso de confiança, pode-se comentar, pensando em como foram as coisas naquele futuro imediato que são os últimos 25 anos. Atravessado o limiar do século XXI, o capitalismo ainda está vivo e bem, a alienação do Eros tem ferramentas tecnológicas cada vez mais sofisticadas e a afirmação dos direitos de gays, lésbicas e transexuais anda de mãos dadas com um processo de normalização da homossexualidade que tende a alargar um pouco as malhas da Norma sem corrompê-la demais. O gueto comercial triunfou, enquanto a luta política dos homossexuais se voltou para a conquista da igualdade de oportunidades. A família lésbica e gay, que ao menos aparentemente tem características muito semelhantes à heterossexual, se firmou como modelo e objetivo político.
Não há dúvida, sendo este o caso, que a previsão de Mieli sobre o futuro a curto prazo revelou-se equivocada. Seu projeto de viagem ao centro do inconsciente e retorno tinha fraquezas fatais. O percurso que parte da conscientização dos homossexuais passa pela transexualidade e chega a uma pansexualidade mística em que as fronteiras entre o objeto de desejo e o sujeito desejante, que é a própria possibilidade de vida e pensamento, se confundem em uma “verdadeira reciprocidade intersubjetiva” (p. 284–5) difícil até de imaginar (quanto mais praticar). Não por acaso, em certo ponto do discurso Mieli repudia a política e se volta ao puro Eros (Não mais políticos, os verdadeiros revolucionários serão amantes [p. 210]) que platonicamente atua como intermediário da ideia transexual. A partir daí ele chega à teologia e à fantasia, elaborando em torno da viagem [trip] esquizofrênica (com e sem a ajuda de substâncias que ampliam a área da consciência) o mito de um ser humano capaz de apreender todos os significados ocultos na realidade e de colocá-los a serviço de sua própria autorreforma, que antes do Nirvana prevê um destino evolutivo andrógino: “à realização utópica [...] do novo homem-mulher ou muito mais provavelmente mulher-homem” (p. 284). Esse novo e unitário representante da espécie é dotado não só de uma mente mais aberta que o homo normalis mas também de características biológicas diferentes, a cujos detalhes Mieli não impõe limites à providência.
Contestando o psicanalista Franco Fornari, que, usando um argumento superclássico, justificou a primazia do coito heterossexual pela sua função reprodutiva, Mieli de fato aponta que “nem é o momento de se falar sobre fertilização artificial ou qualquer outra coisa, porque é muito difícil imaginar quais grandes consequências derivarão da libertação das mulheres e do Eros” (p. 269).
A receita liberadora descrita em Elementos se esgota muito antes de ver esse outro horizonte, também comum a muita da ficção científica “progressista” das últimas décadas e na verdade precursora de um debate hoje ainda incipiente sobre os modos e significados da reprodução humana. De fato, a conquista da transexualidade se apresenta como um dever, ainda que prazeroso nas intenções, em nome do qual todos devem ser induzidos a renunciar às suas mesquinhas identidades “corporativas” para permitir a superação da tradicional antítese heterossexualidade–homossexualidade e a abertura à polissexualidade.
A revolta contra a Norma neste ponto corre o risco de se tornar normativa por sua vez, mesmo que não contemple o uso de meios coercitivos ou terapias como as dos “psiconazistas” contra os quais Mieli argumenta com agudas investidas. A razão para embarcar na jornada em direção à transexualidade, felizmente, só pode ser o desejo, que no entanto é muito mais fácil definir polimórfico na teoria do que manejar como tal na realidade.
Mieli sustenta, por exemplo, que a heterossexualidade e a homossexualidade exclusivas são produtos da mutilação do desejo causada pela educastração. Sua investigação sobre a sexualidade masculina, sustentada pelo ditado popular gay segundo o qual “os heterossexuais, se você souber pegar, cabem todos”, atesta uma forte circulação do desejo homoerótico censurado entre os homens heterossexuais. Basta largar a censura e pronto. Simetricamente, a hipótese transexual afirma que os homossexuais também reprimem seu desejo por expoentes do sexo “oposto”, não levando em conta o fato de que ninguém (muito menos a educação) sonha em induzir jovens gays ou lésbicas a abandonar sua heterossexualidade. Para desejar alguém, não basta querer, senão todos os gays e lésbicas seriam heterossexuais, porque, se pudessem, certamente achariam muito mais conveniente “deixar-se convencer” a amar pessoas de sexos diferentes. E quando se trata de desejos inconscientes, ainda ninguém encontrou uma maneira segura de trazê-los à luz, embora vários o tenham tentado.
A persistência de um desejo homossexual irredutível ao diktat [ditado] da Norma apesar de milênios de perseguições atrozes poderia demonstrar, além de sua inextricabilidade, que alguns homossexuais são objetivamente irrecuperáveis para a heterossexualidade, ainda que part time [em tempo parcial] e de formas não falocêntricas. E o mesmo, com base nos dados da experiência relativos à manifestação de inclinações naturais, pode-se pensar em pelo menos alguns heterossexuais, mesmo que não seja possível testá-los obrigando-os a viver em uma sociedade dominada pela homossexualidade compulsória para ver se eles resistem. Em suma, não é certo que a versatilidade sexual seja um destino acessível a todos, entendendo-se que todos devem ser livres para ir além de seus próprios esquemas.
O convite de Mieli para ir “mais longe” e sua alergia às identidades engessadas não conquistaram as massas nem mesmo o movimento. A identidade gay, após a fase eufórica da confusão sexual da década de 1970, até tendeu a se masculinizar e as bichas revolucionárias logo acabaram ficando desarmadas. A crítica da sexualidade enfrentada em Elementos, contudo, permaneceu um modelo de referência, enquanto algumas das intuições de Mario Mieli tiveram a oportunidade ao longo dos anos de revelar suas virtudes de premonição. Começando justamente por aquela transexualidade indescritível que hoje já pode parecer pelo menos mais inteligível do que há 25 anos. A evolução dos modelos masculino e feminino parece caminhar, apesar de mil resistências, para um abrandamento cada vez mais substancial dos contrastes. Além disso, um número crescente (ou pelo menos mais visível) de pessoas opta por escapar das tradicionais grades de classificação dos sexos. A transexualidade aberta começa a não mais ser forçada à identificação monossexual a todo custo garantida pela operação cirúrgica. Há quem escolha não ficar inteiramente de um lado ou de outro e o reivindica, encontrando apoio na cultura transgender [transgênero], da qual Mario Mieli certamente pode ser considerado um progenitor. Podemos falar também de afinidade espiritual no caso da teoria queer, que na Itália é um gênero de importação relativamente recente e indica um método de pensamento que vai além dos rótulos de “gay”, “lésbica”, “transexual”, “travesti” etc. em nome de uma visão menos estável da não conformidade sexual.
A ruptura com a Norma continua em aberto, apesar das desilusões e contratempos, mesmo que fique claro que o conflito será longo. A satisfação de um erotismo esperançosamente insaciável que Mieli sugeriu como método de luta pode parecer, nessa perspectiva, de aplicação problemática, em especial após o surgimento da Aids. No entanto, não é de forma alguma certo que o sexo seguro impeça a liberação de modo irreparável.
Para garantir a sobrevivência, é preciso, em todo caso, fazer uma certa economia de energia, algo de que o autor de Elementos, de pouco mais de vinte anos, provavelmente escapou. Ele pensou em fazer coincidir a teoria e a práxis, oferecendo em garantia sua própria vida com o máximo entusiasmo, querendo experimentar sua própria ideia de revolução. Incluindo, é claro, a exploração de “perversões” entre as mais temidas e tácitas. Sobre as perversões, o ponto de vista de Mieli é consistentemente sincero: não há motivo para se envergonhar disso porque são também possibilidades de encurralar a Norma.
Ele opta, assim, por enfrentá-las de forma leve e positiva, descartando seus lados sombrios, atribuídos exclusivamente à repressão histórica e aos preconceitos dos “normais”. Ele está ansioso para sublinhar a utilidade social do sadomasoquismo na sociedade “gaio-comunista” e enfrenta o tabu da pedofilia com uma alegria provocativa, tentando vê-lo pelo lado das crianças, as vítimas privilegiadas da coerção (hétero)sexual. “Quando era criança”, nota en passant(p. 92), “procurei em vão por alguém que me ‘aliciasse’”. E pouco antes (p. 77) diz: “nossa ambiguidade está mais próxima do jeito de ser das crianças. Não é à toa que somos gays, somos folles [loucas]; e, por um mundo melhor, penso mesmo que a ‘educação’ dos pequeninos deve ser confiada às bichas e às lésbicas: deixai vir a nós os pequeninos!”. Nada poderia estar mais longe dos feitos assustadores de estupradores e assassinos adultos que aparecem nas crônicas dos jornais, propondo no clichê do monstro “pedófilo” um seguro objeto de ódio que em tempos de politicamente correto já não se sabe mais para onde olhar.
Mieli não desce do salto nem mesmo quando fala da coprofilia, cuja reavaliação ele defende com fartura de argumentos, apresentando-a como a culminação de uma reapropriação revolucionária do prazer anal. O tema da coprofilia, em seu componente crítico, está ligado à denúncia da destruição ambiental produzida pela alienação capitalista: o capitalismo, apavorado com sua própria merda, transforma o mundo inteiro em merda. Em sua misteriosa parte construtiva, porém, desenvolve-se esse tema de mãos dadas com o interesse de Mieli pelo esoterismo e pela magia. Há alguma menção a isso no livro, mas Mieli tratará disso sobretudo mais adiante. Seu manifesto político ainda é animado pela esperança racional (no final da fase histórica que a legitimava) de uma mudança que pode ser determinada por movimentos coletivos.
Gianni Rossi Barilli é jornalista e historiador da cultura gay.