
Bruno Latour e Nikolaj Schultz, Memorando sobre a nova classe ecológica (Vozes, 2022).
No início de 2022, Bruno Latour e Nikolaj Schultz lançaram Memorando sobre a nova classe ecológica, publicado no Brasil pela Editora Vozes, com tradução de Monica Stahel. O livro é composto de 76 notas curtas (cada uma com no máximo duas páginas) e um posfácio da tradução inglesa, que comenta suas questões sobretudo à luz da invasão russa da Ucrânia, discutindo caminhos para a construção de um movimento político que instaure a questão ecológica como horizonte de luta. Ainda que reconheçam a existência de movimentos e esforços pontuais, os autores partem do diagnóstico de que não há um movimento de massa constituído por pautas ecológicas. Como Latour e Schultz admitem, as evidências do colapso climático e da interdependência dos seres vivos não são suficientes para construírem uma luta unificada: qualquer tipo de percurso desse tipo precisa ser construído.
Essa luta dependeria da emergência de uma “classe ecológica” consciente de si, que teria como paradigma de luta não a simples produção de abundância material e a reprodução da humanidade (de maneira mais ou menos distribuída), mas o que os autores chamam de “engendramento”. Enquanto o paradigma da produção teria como foco a capacidade de reprodução da vida humana e a ampliação de suas capacidades, o engendramento designaria o cuidado com as condições de habitabilidade que permitem a realização de qualquer tipo de produção. O ponto de vista do engendramento é aquele em que refletimos não apenas sobre o mundo no qual vivemos, mas também sobre o mundo do qual vivemos – isto é, as condições que permitam que nosso mundo seja habitável.
A crise ecológica (e a instabilidade que se segue dela) seria um efeito direto de uma sociedade que se organiza a partir do paradigma produtivo que trata a natureza como mero recurso utilizado em nome do progresso humano. Essa postura moderna, porém, encontraria no colapso climático seu limite. O que se retira disso é que qualquer política futura deve cuidar das condições de habitabilidade que permitem que qualquer tipo de vida se reproduza. Ainda que, para Latour e Schultz, haja inúmeras continuidades entre as tradições liberal e socialista, a nova situação implicaria uma quebra fundamental e outra relação com o mundo que nos cerca. Em vez de entendida como recurso, a vida deveria ser pensada como uma série de seres interdependentes, e a liberdade, não como a autonomia em relação a determinadas condições, mas como a aceitação daquilo de que dependemos para existirmos. Essa mudança de ponto de vista, portanto, configuraria um novo momento da vida política que ainda não se organizou suficientemente na prática.
Esse percurso se torna ainda mais complicado quando lembramos que a posição ecológica (o ponto de vista da “classe ecológica”) obriga as pessoas a firmarem compromissos muitas vezes percebidos como sacrifícios. Seria necessário abandonar certas expectativas de progresso e abundância material, que vêm com alto custo. Uma vida mais ecologicamente correta não seria muito estimulante para pessoas que cresceram e viveram suas vidas a partir das promessas da modernidade. Para que esse ponto de vista se tornasse aceitável, seria necessário um grande aprendizado que impedisse que o abandono das promessas modernas conduzisse a alguma forma de niilismo ou desinteresse. Seria necessário, portanto, que junto aos novos compromissos ecológicos, fôssemos capazes de dissolver uma concepção de vida generalizada nas sociedades capitalistas que enxerga a posse de mercadorias (seja quais forem) como determinante último da qualidade de vida. Em outras palavras, que nos déssemos conta de que o modo de vida predominante não é a única forma de vida a que se pode aspirar. É diante desse desafio que os autores apontam a necessidade de aprender com povos originários, que tiveram seus mundos devastados pela empresa colonial europeia e aprenderam a resistir aos impulsos da modernização que levaram ao colapso climático.
O pequeno livro expõe de maneira clara e direta os dilemas que se acumulam diante dos militantes ecológicos. Entretanto, a agenda positiva é problemática, e o modo como os autores enquadram as formas de intervenção toma consequências por causas. Além disso, a postura dos autores incomoda pela maneira como varia entre a trivialidade e o desinteresse. Entre as principais discordâncias, gostaria de pontuar três. Concentro-me nelas, pois sinto uma estranha proximidade que me obriga a tentar entender como me distancio da forma como os autores a tratam.
A primeira delas parece um caso clássico de “a crise é estética”. Os autores identificam corretamente que há pouco estímulo para se juntar às fileiras da crise climática. A solução proposta, porém, é que haja mais obras de arte que “estimulem” afetos adequados aos problemas ecológicos. Obras artísticas, a partir desse ponto de vista, são concebidas como objetos capazes de exprimir e transmitir ideias, afetos e visões de mundo de maneira eficiente – de maneira sedutora. Ainda que haja efeitos políticos de obras de arte, não faz muito sentido tomá-las como causa de transformações culturais. Se há transformação, ela se dá no nível da organização da produção das obras (sua condição de engendramento, de habitabilidade do mundo da produção das obras). As obras de arte afinadas ao problema parecem, no máximo, efeitos, não causas de uma transformação cultural. O que está posto em segundo plano é justamente o papel da política e da organização na construção desse novo corpo político.
A segunda discordância diz respeito ao papel do pensamento (e da filosofia) na construção da nova “classe ecológica”. Preocupados em evitar uma postura anti-intelectualista, avessa à reflexão e ao pensamento, Latour e Schultz lembram como um dos elementos fundamentais para a eclosão da Revolução Francesa (e das transformações políticas e sociais que lhe seguiram) foi um longo acúmulo de discussões e redescrições conceituais. Da mesma forma, diante do colapso climático, o trabalho conceitual seria um passo necessário para a constituição de uma classe ecológica que atenda às demandas atuais – mesmo que não tenhamos o tempo disponível de antes da Revolução Francesa. Ainda que não se possa desprezar o papel da cultura iluminista na França pré-revolucionária, é conveniente demais acreditar que foi o conteúdo das discussões que acabou por cozinhar o caldo que entornaria em 1789. Assim como nas artes, as distinções conceituais específicas são muito mais consequências de atos políticos do que suas causas. As novidades do campo político antecipam o pensamento, mas não condicionam seu desenvolvimento. Que o trabalho necessário para construir um novo horizonte político seja justamente o tipo de atividade que (ao menos) um dos autores dedicou a vida a realizar é uma coincidência interessante, mas quantas pessoas conseguem evitar cair nessa posição? Essa demanda por reflexão filosófica como condição para a ação política é, para tomar emprestada uma imagem de um amigo, como o truque em que o mágico retira de sua cartola aparentemente vazia um coelho que estava com ele desde o início.1
A terceira discordância é quase uma consequência. Latour e Schultz não são ingênuos; o tipo de elaboração conceitual que defendem não fica restrita aos âmbitos acadêmicos. Para os autores, a nova classe ecológica pode emergir de um acúmulo de redescrição da situação efetuada pelos indivíduos afetados por ela. Neste caso, portanto, trata-se de descrever a crise climática, seus efeitos, a maneira como revelam as redes de interdependência que sustentariam as supostas autonomia e liberdade humana – uma proliferação de descrições que atestam que o ímpeto de reprodução da vida humana é dependente do engendramento. Esse acúmulo acabaria constituindo um novo ponto de vista, que serviria para orientar a nova classe ecológica. É impossível discordar que qualquer tipo de luta passa por uma disseminação dos poderes de descrição da realidade pela sociedade. Como bom platonista que sou, a dóxa é o ponto de partida para a reflexão mais impessoal, mais universal (desde que seguida do trabalho da dialética).2 Ainda assim, é difícil acreditar que, se redescrever direitinho, todo mundo transa. Isto é, a capacidade de acumular depende de esforços de organização das capacidades de transmissão e circulação que não podem ser completamente reduzidas ao ato descritivo. O próprio desejo de transmitir pode, no processo de realização de seu objetivo – entender as formas de dar espaço para que certas ideias se transmitam – fazer surgir novos problemas, que podem levar a reflexão para outros pontos. A capacidade de dizer outras coisas, de produzir novas descrições, parece mais um sintoma ou um sinal de que algo já está diferente (e, por isso, o processo de tentar dizer, descrever). Mais uma vez, Latour e Schultz invertem a ordem entre o político e o discursivo (incluindo aqui a arte, tomando o que é consequência como causa. É curioso que autores que afirmam que é a própria classe ecológica que vai botar a carroça atrás dos bois (subordinada às próprias metamorfoses e instabilidades do mundo “do qual se vive”) acabem tomando causas por consequências.
No que diz respeito à postura dos autores, podemos começar pelo desinteresse, já que, ao longo do livro, há um desejo constante de demarcar o ponto de vista ecológico como mais amplo que o horizonte que orientou as lutas políticas liberais e socialistas. Mas, fora alguns clichês, em nenhum momento isso é abordado de maneira clara, e os socialistas são sempre grupos genéricos, desprovidos de qualquer especificidade, salvo de um foco na “produção”. Os autores esboçam que a tradição socialista teria como objetivo resistir à economicização da vida (tal como Polanyi entendia a questão, um dos raros interlocutores explícitos do texto), mas a pressa em demarcar a amplitude do ponto de vista ecológico faz com que tratem continuamente liberais, socialistas e indistintos “modernos” como partidários da produção, que não dão mais conta das novas demandas que o mundo faz. Nesse gesto, jogam fora o bebê junto com a água. Alguém poderia dizer que é apenas um memorando (os próprios autores dizem no início), não há interesse em sistematizar. Certo, mas há algum interesse em se engajar? A própria ideia de classe é confusa ao longo do livro: não se compreende se é um conceito sociológico ou político, se são estratos sociais ou se o que está em jogo é realmente a ideia de classe no contexto das análises das tradições marxista, socialista ou comunista.3
A trivialidade dos enunciados parece um efeito direto da necessidade de validar a posição dos autores (o ponto de vista ecológico) em comparação àquelas de tradições anteriores. Uma atenção aos desenvolvimentos dessas questões na tradição marxista (no passado e no presente) apresentaria inúmeros pontos de convergência que serviriam de base para a conexão de diferentes lutas.4 Do jeito que essas posições são apresentadas, porém, o efeito mais provável (e não me eximo disso!) é reafirmar a posição que já se tenha sobre Latour. Aqueles que pensam junto com ele se sentiram animados e estimulados pelo campo de problemas que ele investiga. Os que já têm discordâncias vão encontrar os preconceitos da obra latouriana reproduzidos neste pequeno livro.
Por fim, há um último ponto que parece ofensivo: o elogio à civilização europeia e sua elevação à modelo para a futura luta climática. Cito aqui a fim de permitir o juízo:
Felizmente há a Europa. Há nessa “coisa” enorme, apesar de todos os defeitos de sua burocracia, se não uma fonte de esperança, pelo menos uma experimentação de todos os novos conflitos de geopolítica em que a classe ecológica está inserida. Imensa vantagem poder contar com essa potência que tentou sucessivamente o supra-, depois o inter-nacional e que nem por isso é nacional. Uma potência hesitante, que nem mesmo tem lugar – a menos que se considere um centro administrativo em Bruxelas como a capital de um império! A Europa unida é justamente encantadoramente desunida, mas já completamente distante de um Estado à antiga, para distribuir pedaço por pedaço os ingredientes que as novas formas de poder deverão juntar de maneira diferente. A agricultura, a água, os poluentes, os lobbies, as estradas, os trens, tudo passa por ela, mas, a cada vez, os objetos em questão, cortados em mil parcelas, são negociados, discutidos, misturados, afogados de tal maneira que nenhum Estado possa declará-los seus. Assim, já não há assunto que seja verdadeiramente estrangeiro. E nem que seja verdadeiramente nacional. A Europa unida é, para a classe ecológica, o exemplo de uma experiência em tamanho natural na qual a redistribuição do interior e do exterior dos Estados lhe prepara o papel de futura classe-pivô capaz de carrear atrás de si as outras classes. Às vezes incluem-se no mesmo desprezo a ecologia e a Europa unida, mas é justamente porque são mais racionais do que aqueles que pretendem proceder melhor do que elas. Sob condições de reivindicar orgulhosamente essa racionalidade superior (p. 95–97).
É ultrajante que um livro destinado a propor um novo caminho para a luta climática e que assume o ponto de vista ecológico como aquele em que consideramos também o mundo “do qual” vivemos tome essa unidade (a União Europeia? A Europa Iluminista? A Europa Geográfica? os contornos não ficam visíveis) como ideal; um mundo que se alimentou e se alimenta de tantos outros mundos para poder permanecer o que é. Ignorar os níveis de extração (de humanos e não humanos, de territórios devastados a humanos escravizados) que compuseram esse espaço é reproduzir mais uma vez os ímpetos imperialistas que nunca deixaram de vir daquelas terras. Ignora-se completamente “do que viveu” esse continente durante os séculos em que construiu sua união. Só é possível tomar essa União Europeia como “exemplo de experiência em tamanho natural” caso se invisibilizem suas condições de engendramento. Não há mistério: boa parte das riquezas que permitiram o desenvolvimento europeu (“do que se vive”) nos últimos séculos provieram das experiências coloniais ao redor do globo – experiências que contribuíram diretamente com a crise que vivemos. É esquisito e amargo que, após mencionar a força dos povos originários, que conseguiram resistir à destruição provocada pela modernidade, o exemplo eleito seja o dos os próprios agentes dessa destruição (por meio de seus empreendimentos coloniais). Se é difícil encontrar exemplos históricos que sirvam como modelo, isso se deve à própria novidade do problema que os autores corretamente identificam. Não temos qualquer forma efetiva de cooperação em larga escala que se concentre no cuidado com as condições de engendramento do mundo que vivemos. É preciso, portanto, inventar caminhos para evitar repetir antigos problemas.
Talvez essas impertinências surjam porque o livro parece dirigido a um grupo muito específico (às vezes há a impressão de que a obra é voltada para militantes ecológicos europeus interessados em aumentar a participação em sistemas representativos), mas, se for o caso, Memorando sobre a nova classe ecológica teria pouco sentido no contexto nacional em que as disputas políticas de ordem climáticas incluem, claro, questões eleitorais, mas também formas de ação e organização política fora do sistema participativo (e muitas vezes contra ele). Essa inadequação se torna maior quando se observa que muitas pessoas engajadas na luta climática o fazem a partir de heranças explícita ou implicitamente comunistas, socialistas ou marxistas. O resultado pode ser mais hostilidades, não o ponto de vista mais amplo que os autores desejam construir.
Rafael Saldanha é filósofo e pesquisador no STP (Subconjunto de Prática Teórica).
- Imagem que Gabriel Tupinambá usa para falar de certos trabalhos teóricos. ↩
- “Mas, se é o caso, como tu e eu neste momento, de que pessoas que são amigas queiram conversar uma com a outra, é preciso de alguma forma responder de maneira mais suave e mais dialética. Mas talvez o mais dialético seja não só responder a verdade, mas também por meio de coisas que aquele que é interrogado admita que sabe.” (Platão, Mênon, 75d) ↩
- Esse desinteresse pela tradição marxista atinge para mim seu ponto máximo de estranhamento nas menções ao Gramsci no contexto das discussões sobre disputa do Estado. Estou longe de ser um especialista, mas as referências ao Gramsci e ao conceito de hegemonia gramsciana lembram mais as intervenções de Olavo de Carvalho do que propriamente qualquer herança do marxismo gramsciano. ↩
- Esse tipo de trabalho é realizado de maneira impecável em Molecular Red, de McKenzie Wark (Verso, 2016). No livro a autora explora e propõe conexões entre uma tradição comunista (que tem Bogdanov como um de seus principais representantes) e uma tradição tecno-científica norte-americana (que tem Haraway como um dos principais nomes) no contexto da crise climática. ↩